O novo livro de João Paulo CuencaChega às livrarias na próxima semana o segundo romance do escritor carioca João Paulo Cuenca,
O dia Mastroianni (Agir), em que dois amigos passam o dia flanando por uma cidade imaginária. O lançamento será na Livraria da Travessa de Ipanema, no dia 11, às 19h, seguido de uma festa no Cinemathèque, em Botafogo. Para quem quiser ouvir sobre o livro, amanhã, também às 19h, Cuenca estará na Fnac da avenida Paulista, participando ao lado de Daniel Galera de um debate com jornalistas da revista Bravo. No dia 13, ele vai ao Café Cultural da Feira Nacional do Livro da Baixada Santista, no mesmo horário. Cuenca também falou sobre o processo de criação da obra no boletim Tempo de Letras que foi ao ar ontem. Confira no link ao lado direito. E leia aqui um trecho do livro:
“Há um homem careca numa das mesas ao lado que insiste em olhar para nós. Veste um roupão felpudo e destrincha, com a ajuda de complexos instrumentos de metal, as entranhas de uma lagosta deitada sobre o prato. O que consegue extrair de dentro do animal, come ruidosamente usando as mãos.
— Vocês, sentem-se aqui comigo!
Tomás me encara como se me perguntasse algo: não bastasse o traje extravagante, o sujeito ergue pedras coloridas nos dedos mínimos e uma constelação de correntes no pescoço.
— Podem vir. Não sou bicha!
É a senha. Trocamos de mesa.
— Quem são vocês? — o velho fala com um sotaque indefinível.
— Somos estudantes.
— Os dois me parecem velhos e arrumados demais para estudar qualquer coisa.
— Você tem razão — Tomás assente com a cabeça.
— No entanto, parecem novos demais para usar essas roupas. O que estão fazendo aqui? São michês?
— De jeito nenhum!
Meu amigo não deveria ter respondido tão rápido: eu confirmaria a história para ver até onde iria o velho.
— E você, o que faz? É bicheiro?
O velho me devolve a provocação com um sorriso de cartum.
— Quem me dera. Sou escritor. Mas não sou da época de vocês, não! Sou de outros tempos: quando era algo maravilhoso ter escrito um livro. E hoje em dia... — um muxoxo. — Sou Esgar Mxyzptlk. Vocês já ouviram falar em mim?
Conhecemos o infeliz, é claro. A partir dali, o velho deita falação sobre sua carreira iniciada há trinta anos e milhões de exemplares vendidos em todo o planeta. Explica o convite que o trouxe à cidade para palestrar numa feira literária, o que, já pelo nome, segundo ele, seria “uma contradição em termos”, “um picadeiro de vaidades”, “um varejo de logros”, “um congresso de vendas”:
— Ando tão ocupado em ser um escritor, que não tenho mais tempo de escrever.
— Belo oxímoro, senhor Mxyzptlk!
— Fui traduzido para doze idiomas.
— Não sabia que existiam doze idiomas — roubo um pedaço do crustáceo, aberto em decúbito ventral na mesa de autópsia.
— O que os jovens querem comer? Eu ofereço.
Tomás pede uma milanesa à francesa: bife amaciado à marteladas empanado com farinha de trigo e ovos, acompanhando batatas palito com ervilhas, cebolas e fios de presunto. É o que sempre come em qualquer restaurante. Observando a fileira da direita, escolho o prato mais caro do cardápio, para depois perceber que é algum tipo intragável de coelho com molho de chocolate e pimenta. O velho pede champanhe gelado para todos.
— Desculpem se falo muito de mim. É que ultimamente só converso com jornalistas e outros escritores, e como só falo sobre esse assunto para eles, fico com essa mania. Mas vocês não são jornalistas ou escritores.
— Na verdade, poderíamos ser jornalistas ou qualquer outra coisa se não estivéssemos aqui, ou em todos os outros lugares.
— Entendo. Então acho que terei que falar em off — Mxyzptlk diz, amistoso.
Viro o copo e me sirvo outra vez:
— Off, como diria amigo meu, é como o rabo: melhor não dar. Somos desprezíveis! Ninguém na sua posição deveria confiar em vagabundos como nós.
— Pois vocês me parecem um par de jovens adoráveis.
Conversamos sobre amenidades, free jazz, a teoria do caos e os últimos lançamentos editoriais, entre garfadas, voltas ao redor do próprio eixo e garrafas de espumante.
— É uma bela vista, mas a idéia de um restaurante giratório é ultrajante. Não faz o menor sentido. Por que alguém gostaria de comer num lugar que gira o tempo inteiro?
— Acho que é porque dá a boa sensação de que se está indo para algum lugar. Mesmo que, no final, não se chegue a lugar nenhum.
— Seus leitores devem concordar com isso!
É quando Mxyzptlk fica pesado:
— Ah, a juventude cega! Não existe algo como “os meus leitores”. O que existe é uma multidão em branco que resolve comprar livros com o meu nome na lombada. Desses, um décimo lê. A outra parte diz que leu, mas não consegue chegar até a metade. Hoje em dia, compra-se o livro pela capa, para botar na estante e fazer bonito. É só mais um fetiche. Dos néscios que largam os livros nas primeiras páginas tenho uma inveja profunda! — o velho faz uma pausa para mastigar uma pata da lagosta e lamber os dedos. — Provavelmente são sujeitos que vão à piscina aos sábados com as crianças e não tem a vida pontuada por delírios frívolos de grandeza encadernados de dois em dois anos. Gente saudável.
— Mas isso não é nada mal. Falando sobre os delírios de grandeza, eu mesmo...
O velho Esgar me interrompe raivoso:
— Pois então experimente! Fique com os meus leitores, leve-os para casa. O que me tira a saúde é essa pretensão, ainda mais se posta à luz da irrelevância do que fazemos nesse mundo semidestruído!
E ainda:
— Não vale a pena perder uma vida inteira com palavras. A linguagem é a corruptora do pensamento! E o tempo que se gasta escrevendo é tempo em que não se faz nada, e para ninguém que importe.
— Disconcordo: “Quando se vive, nada acontece...”
— E esse é o engano de toda uma geração de narradores idiotas, meu jovem. Se tivesse nessa vida algum poder, que fosse o de destruir esses espelhos distorcidos... A gente entrega nossa vida a... Um bibelô, meu caro!
Ou:
— Um móbile bem construído! Pode ser belo, mas é inútil. Para que serve um livro de ficção nesse mundo?
— E o que é útil, então?
— Esse almoço, por exemplo. A lagosta ao alho. E o vinho. Mas vocês são muito novos, e ainda não entendem nada do que estou falando.
— Certamente que não.
— E tomara que jamais compreendam!"
O dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca
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Um poema de Ivan JunqueiraOntem falei no boletim Tempo de Letras, que vai ao ar às 22h32, sobre duas antologias, uma delas do imortal Ivan Junqueira, chamada
O tempo além do tempo, publicada pela Quasi Edições, de Portugal. Deixo aqui um dos belos poemas que fazem parte do livro. O boletim pode ser acessado no link dos favoritos, que está aí no lado direito da página.
Esse punhado de ossos"Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro e de mais fino.
Foram damas tais ossos, foram reis,
e príncipes e bispos e donzelas,
mas de todos a morte apenas fez
a tábua rasa do asco e das mazelas.
E ali, na areia anônima, eles moram.
Ninguém os escuta. Os ossos não choram."
Ivan Junqueira
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Martin Page lança novo livroO francês Martin Page, de 32 anos, autor do romance
Como me tornei estúpido (Rocco), sátira à sociedade contemporânea e às relações interpessoais que foi traduzida para 30 países, vem ao Brasil esta semana conferir a adaptação da história para o palco feita pela Cia. Estúpida da Cooperativa Paulista de Teatro, em cartaz no Viga Espaço Cênico (Rua Capote Valente, 1.323, Pinheiros, São Paulo). Na quarta-feira, às 19h30, ele participa de um bate-papo com o público carioca na livraria Arteplex (Praia de Botafogo, 316 lojas D/E, Botafogo, Rio de Janeiro). Ele está lançando seu novo livro,
A gente se acostuma com o fim do mundo (Rocco). A obra conta a história de Elias Carnel, um dos produtores de cinema de maior renome da França, que vê, de repente, o seu universo desmoronar ao ser afastado de um badalado filme a ser realizado na África. O encontro, com entrada franca, será mediado pelo escritor e roteirista Max Mallmann e terá tradução simultânea.
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Prêmio José MindlinEstão abertas até 30 de novembro as inscrições para o Prêmio José Mindlin de Literatura, para obras inéditas na categoria Narrativa de Ficção. Podem concorrer autores brasileiros ou naturalizados, com obras em prosa nos gêneros romance, novela, memórias, livro de contos e livro de crônicas. Os trabalhos não podem ter sido publicados em meio eletrônico. O vencedor receberá R$ 10 mil e terá seu livro publicado pela Autêntica Editora e distribuído em junho do próximo ano. A inscrição pode ser feita de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, na Câmara Mineira do Livro, na Rua Ulhoa Cintra, 95, salas 503 e 504, Santa Efigênia, Belo Horizonte, MG, CEP 30.150-230, ou via postal, por sedex ou carta registrada com aviso de recebimento. O edital pode ser acessado no endereço eletrônico
http://www.autenticaeditora.com.br/noticias/item/11
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ABL, desde 1897A Academia Brasileira de Letras faz nesta sexta-feira solenidade com presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para celebrar os 110 anos de sua fundação. O ministro da Cultura, Gilberto Gil, também estará presente. O orador oficial da cerimônia será o acadêmico José Sarney. Uma missa no Mosteiro de São Bento, às 11h30, dá início às comemorações. Às 18h, será realizada a sessão solene comemorativa, no Petit Trianon.
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Pesquisa de livros na redeO Google apresentou na Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro duas novas ferramentas para facilitar a Pesquisa de Livros de seu portal. A Pesquisa de Livros Customizada disponibiliza as principais funcionalidades do produto no próprio site de editoras parceiras, como Senac, Ediouro, Summus e Unesp. Já o Social Book Search permite aos usuários construir bibliotecas virtuais, escrever resenhas sobre livros e compartilhar as informações com outros internautas. Lançada em 2004, a Pesquisa de Livros do Google permite busca no texto completo da publicação e, ao mesmo tempo, controla o grau de acesso individual ao texto. As páginas também contêm links para compras em livrarias na rede.
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Primeiro popularO projeto Primeiro Popular, que começou em Porto Alegre, na última edição da Feira do Livro da capital gaúcha, será realizado amanhã no Rio, às 22h, no Cinemathèque JamClub, como uma despedida da Bienal do Livro. Na noite dedicada a ruídos e literatura, escritores, compositores, músicos e DJs misturam textos e trilhas sonoras produzidas especialmente para o evento. Entre os convidados, Antonio Cícero, Chacal, Michel Melamed, Cecília Giannetti, João Paulo Cuenca, Fabrício Carpinejar, Marcelino Freire e Omar Salomão. O endereço é Rua Voluntários da Pátria 53, em Botafogo.
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Pocket paposNeste fim de semana, vou entrevistar alguns autores da Ediouro no estande da editora na Bienal do Livro, que fica no pavilhão verde. Quem quiser assistir aos chamados pocket papos precisa passar por lá uma hora antes e retirar uma senha. A programação é a seguinte:
Hoje18h30 - Luís Nassif
19h30 - Cecilia Giannetti e João Paulo Cuenca
Amanhã15h30 - Claudia Tajes
16h30 - Ricardo Neves
17h30 - Fernanda Young
18h30 - Manuel Alegre
19h30 - Marcelo D2 e Bruno Levinson
Domingo15h30 - Fernando Barbosa Lima, Rixa e Bia Braune
16h30 - Flávio Moreira da Costa
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Retrato de uma guerra do nosso tempoRelatos de guerra têm público certo.
Um soldado brasileiro no Haiti (Globo), além de expor o lado cruel das batalhas, que quase sempre atingem impiedosamente os civis, é ainda mais chocante por revelar os tormentos pelos quais passam as tropas de nosso país em uma das mais pobres nações do mundo. Tailon Ruppenthal descreve o dia-a-dia dos haitianos e o trabalho da missão de paz da ONU do qual fez parte. Como neste trecho: "Não há no Haiti nenhum espanto diante da violência. As pessoas assistem de camarote às balas cruzando o ar, não se incomodam se um cadáver ficar uma semana apodrecendo na calçada e contam nos dedos, sobretudo os mais pobres, o número de parentes desaparecidos. De uma hora para outra um adolescente pode se tornar um miliciano e entrar para a loucura. Tudo muito normal." O depoimento foi dado ao jornalista Ricardo Lísias. Os dois estarão juntos neste sábado na Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro. Eles vão participar da mesa
Por que a violência é tão presente na literatura americana?, ao lado dos jovens escritores peruanos Daniel Alarcón e Santiago Roncagliolo. Às 19h, no Botequim Filosófico.
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No Rio de JaneiroO mexicano David Toscana, uma das atrações da Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, participa de bate-papo hoje, às 19h30, com o professor Victor Lemus na Livraria da Travessa do Shopping Leblon. Ele vai autografar seus três livros publicados no Brasil: o novo
O exército iluminado,
O último leitor e
Santa Maria do Circo.
Em São PauloNo Instituto Cervantes, também às 19h30, o argentino Pablo de Santis conversa com o público e apresenta
O enigma de Paris, com o qual ganhou o Prêmio Iberoamericano Planeta Casa de América 2007. Pablo é também jornalista, roteirista de quadrinhos e autor de livros para adolescentes. A mediação da conversa será feita por Nelson de Oliveira, escritor e organizador, entre outros, da coletânea
Geração 90: manuscritos de computador.
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